Polícia
por Marcela Guimarães
Publicado em 03/04/2025, às 12h27
Imagens registradas por câmeras corporais revelaram o momento em que policiais militares ameaçaram, agrediram e torturaram dois adolescentes de 14 anos em maio do ano passado. O caso ocorreu em São Mateus, na zona leste de São Paulo.
Os jovens, que haviam sido acusados de roubo, foram posteriormente absolvidos. Já os cinco policiais envolvidos no episódio enfrentam acusações de tortura e fraude processual. Quase um ano após o ocorrido, a primeira audiência do caso na Justiça acontecerá nesta quinta-feira (3).
Identificados como Vinicius e Henrique, os estudantes estavam a caminho de casa após visitarem um amigo quando foram abordados e detidos por policiais militares.
Eles foram acusados, sem provas, de um suposto envolvimento no roubo de um carro. Como resultado, os dois chegaram a passar cinco dias internados na Fundação Casa.
Em uma quinta-feira à noite, Vinicius e Henrique foram abordados por policiais militares no muro da Escola Municipal de Ensino Fundamental Júlio de Grammont. Eles voltavam a pé da casa de um amigo, onde passaram a noite jogando videogame.
De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público (MP), os adolescentes foram “constrangidos” pelas autoridades a confessar um roubo de carro que não cometeram. Em seguida, foram algemados e colocados no camburão da viatura.
No entanto, eles não foram levados imediatamente para a delegacia. Os PMs fizeram uma parada na rua onde o veículo supostamente roubado havia sido abandonado. Durante os quase 20 minutos que permaneceram no local, os jovens foram agredidos e ameaçados de morte.
A violência foi registrada pelas câmeras corporais dos agentes, apesar das tentativas de atrapalhar a gravação; em alguns momentos, os policiais cobrem as lentes com as mãos e até mesmo chegaram a remover os dispositivos dos uniformes para impedir que o caso fosse filmado.
Cinco policiais militares estiveram envolvidos no caso. O cabo Leandro de Freitas Menezes e o soldado Guilherme Correia Jordão foram os principais responsáveis pelas agressões e pela tortura “ativa”.
De acordo com o MP, o sargento Gilmar Fim, a cabo Virgínia Gonçalves Rakauskas e o soldado Igor Vianna Da Silva “omitiram-se dolosamente”.
As imagens registradas mostram o momento em que o cabo Freitas agrediu Vinicius com um soco no rosto e apertou seu pescoço enquanto o adolescente chorava. Logo depois, o policial tentou ocultar a gravação cobrindo e desacoplando sua câmera antes de partir para as agressões contra Henrique.
O soldado Jordão também golpeou o jovem no rosto e, além disso, pressionou um cigarro aceso contra o braço esquerdo de Vinicius, causando queimaduras.
Além da violência física, as gravações das câmeras corporais revelam que os policiais ainda ameaçaram os adolescentes enquanto riam da situação.
Os dois adolescentes foram encaminhados ao 49º Distrito Policial (São Mateus), onde acabaram confessando o roubo do carro “diante do intenso sofrimento físico e mental”, de acordo com o MP. Antes de entrarem na delegacia, foram novamente agredidos e ameaçados pelos policiais.
Em outubro do ano passado, o Tribunal de Justiça absolveu Vinicius e Henrique, diante da falta de provas que os vinculassem ao crime de roubo.
Nesta quinta-feira (3), enfim, os cinco policiais militares envolvidos enfrentarão a primeira audiência de instrução. Como o processo corre sob sigilo, a Justiça Militar não divulgou mais informações sobre o andamento.
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